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Homens já ajudam, mas jornada dupla segue feminina PDF Imprimir E-mail
08.03.2010
Segundo o IBGE, quase 90% das mulheres que trabalham fora declararam que cuidam também dos afazeres domésticos

Trabalho que não serve para comprar coisas e pagar conta tem valor? Um exercício da pesquisadora da UnB Hildete Pereira de Melo calculou “por baixo”, como ela frisa, o impacto que teriam as atividades das donas-de-casa se fossem remuneradas: o equivalente a 10% do PÌB nacional. “Mensurar as contas nacionais é algo simbólico para contribuir no processo de valorização desse trabalho”, explica. Ela se refere à percepção de que os afazeres domésticos realizados por donas-de-casa e mulheres em jornada dupla são “inferiores”, apesar de essenciais à organização social. “Essa questão está na raiz da subordinação do papel feminino”, afirma.

Segundo os Indicadores Sociais de 2009 do IBGE, quase 90% das mulheres que trabalham fora declararam que cuidam também dos afazeres domésticos, contra 46,1% dos homens na mesma situação. A diferença continua no tempo que os entrevistados disseram dedicar a essas tarefas: enquanto eles gastam em média 9,2 horas por semana, elas comprometem 20,9 horas semanais. A carga horária feminina de afazeres domésticos equivale a ter um segundo emprego de meio período. Sem receber nada.

Para a pesquisadora da Fundação Carlos Chagas Cristina Bruschini, apesar da disparidade, essa é uma questão que está em processo de mudança. “Antes da década de 90 essa pergunta nem existia nos estudos do IBGE. A dona de casa era considerada uma inativa”, explica. A doutora em Psicologia pela UnB Giovana Perlin concorda que há um movimento nesse sentido. “O homem começa a se aproximar desse ambiente doméstico. Mas em geral ele ainda acha que está fazendo algo a mais, não que está dividindo algo dele”, afirma. “Em média, o homem até gostaria de participar das atividades de cuidado das crianças, mas não consegue se aproximar da forma como gostaria. Nossa legislação acaba colocando o cuidado da criança quase como exclusivamente como função da mulher”.

A transição que a pergunta do IBGE reflete ao transformar a divisão de afazeres domésticos em uma questão pode ser vista na casa da funcionária pública Andréia Machado, de 28 anos, que recebeu o apoio do marido quando passou em um concurso que obrigaria a família a mudar de Gravataí para Dom Pedrito, ambas cidades gaúchas. Ela conta que o marido pediu demissão do emprego para acompanhá-la, e enquanto ele procurava uma nova colocação, era também o principal responsável pelos afazeres domésticos. Mãe de uma menina de quatro anos e um bebê de três meses, ela agora está em licença-maternidade. “Mas durante o tempo em que eu estava trabalhando, meu marido é quem tomou conta da casa de verdade. Agora, com o bebê, ele também participa de tudo. Hoje mesmo fez um almoço daqueles de virar os olhos!”, elogia.

Mas as mudanças não acontecem sem atrito. A divisão de tarefas na casa de Andréia foi criticada dentro da própria família dela, que a questiona por “permitir” que ele divida as tarefas. A estranheza causada por seu arranjo não foi surpresa para ela: “Vejo pela minha própria mãe. É ela quem cuida de tudo em casa, e se sobrecarrega. Até o carro do meu pai ela lava, mas é daquelas mulheres que acha que é assim que tem que ser”.

Essa sobrecarga do “assim que tem que ser” pode ter conseqüências negativas na vida da mulher e da família. “A dupla jornada pode ter um impacto muito grande na intimidade do casal”, diz Giovana Perlin. “As pessoas têm menos tempo para investir, ficam cansadas, a vida sexual é afetada. Para a mulher essa situação é mais dramática. O homem ainda consegue organizar um tempo individual. O tempo que seria só para ela, ela acaba dividindo com outras pessoas: levar crianças para passear, cuidar de um parente doente, visitar os avós”.

Com percalços ou não, a mudança em curso parece não ter volta. “As mulheres quando estão no mercado de trabalho não querem sair. Não querem voltar para casa e ficar só lá. Elas fazem aquela ginástica, mas não querem voltar. Vão abrindo esses guetos, ganhando mais”, diz a pesquisadora Cristina Bruschini. “Eu só admiro, porque eu olho para trás e era muito ruim”.

Fonte: IG São Paulo

 
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