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Trabalho escravo: 37 mil libertos em 15 anos PDF Imprimir E-mail
26.05.2010

Mais de 37 mil deles, em 2600 estabelecimentos rurais, foram libertados desde 1995 (quando foi criado o sistema de combate a esse crime) em ações de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal.

Brasília - Há dois anos, um trabalhador teve o rosto, braços e tórax queimados, repetidas vezes, com ferro de marcar gado em brasa em uma fazenda no Pará. Seu crime? Ter reclamado dos três meses de salários nunca pagos e da falta de comida decente para ele e os colegas. A sessão de tortura teria sido realizada pelo próprio dono da fazenda com a ajuda de capatazes. Para mostrar quem manda e quem obedece.

Este é um caso extremo, mas serve para ilustrar a que ponto chegam as condições degradantes a que são submetidos os trabalhadores escravizados em todo o país. Mais de 37 mil deles, em 2600 estabelecimentos rurais, foram libertados desde 1995 (quando foi criado o sistema de combate a esse crime) em ações de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal.

Desmatavam a floresta amazônica para a implantação de propriedades rurais, limpavam pastagens, faziam cercas para os bois do patrão. Catavam tocos e raízes preparando o terreno para chegada de soja, milho ou algodão. Produziam carvão vegetal para abastecer fornos de siderúrgicas. Cortavam cana. Mas também trabalhavam em canteiros de obras de hidrelétricas ou costuravam as roupas que compramos (por pouco) no dia-a-dia.

Para discutir como o Brasil vem enfrentando o trabalho escravo, o que vem dando certo nesse combate e o que falta fazer para que esse crime contra os direitos humanos seja extirpado, representantes da sociedade civil, empresas, governo e organizações internacionais estão se reunindo, entre os dias 25 e 27 de maio, no Encontro Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, na Procuradoria Geral da República, em Brasília.

A abertura contou ontem com a presença do ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Brito, dos ministros Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) e Carlos Lupi (Trabalho), da vice-procuradora gerla da República, Débora Duprat, do responsável pela Organização Internacional do Trabalho para América Latina e Caribe, Jean Maninat, entre outros. O mestre de cerimônias foi o ator global Wagner Moura, membro da ONG Humanos Direitos. O tom entre todos foi parecido: houve avanços importantes, mas ainda estamos longe de mostrar que esse crime não compensa.

Sabe-se que a escravidão contemporânea é sustentada por aqui por um tripé: impunidade (que dá a liberdade para explorar sem reservas pela certeza de que punição é coisa para pobre), ganância (e a busca por economizar dinheiro com a dignidade do trabalhador para concorrer em um mercado cada vez mais globalizado e a pobreza (que empurra milhões para aceitar qualquer emprego). Combater esse tripé significa atacar um crime, mas também rever nosso sistema de Justiça, nossos padrões de consumo e nosso modelo de desenvolvimento. Ou seja, na luta contra o trabalho escravo reside a grande batalha deste início de século: crescer economicamente e, ao mesmo tempo, garantir que isso seja feito para benefício de todos, sem a degradação do ser humano ou do meio ambiente.

Recentemente a presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu (DEM-TO) criticou o combate ao trabalho escravo em entrevista à revista Veja. Fez o mesmo ontem em artigo publicado pelo jornal Estado de S. Paulo, apontando razões ideológicas para a ação dos funcionários públicos responsáveis pela libertação de pessoas. Não é a primeira vez, nem será a última, em que ela afirma deplorar a escravidão, mas contesta que as condições encontradas pela fiscalização configurem esse crime.

Os produtores flagrados por esse crime reclamam que o governo viu trabalho escravo em colchões que não atendiam às medidas recomendadas, na falta de azulejo no banheiro ou na inexistência de área de descanso para empregados. Mas não comentam que a fiscalização também encontrou, nas mesmas fazendas, pessoas presas a dívidas ilegais, aliciadas em outros cantos do país sob promessas fantasiosas, tendo que comer alimentação estragada e brigar com o gado pelo acesso a água, em alojamentos precários montados dentro de currais, sendo ameaçados, espancados, retidos, exauridos. Se as pessoas soubessem ler os documentos públicos ou se informar junto aos órgãos competentes, saberiam que não é uma autuação pro azulejo que configura escravidão (o que seria ridículo), mas é um conjunto delas configurando a inexistência de respeito à dignidade e à vida humana.

Mas por que tanto esforço para defender quem reduz trabalhadores a instrumentos de trabalho?
Considerando que esse tipo de mão-de-obra é usada para garantir competitividade ao produtor, a sua adoção representa, na prática, concorrência desleal com relação àqueles que operam dentro de formas contratuais de trabalho. Contudo, muitas entidades de produtores têm defendido o associado envolvido no crime, ignorando uma ação comercial lógica, que seria retirá-lo do grupo ou suspendê-lo enquanto apresentasse pendências, para evitar uma contaminação da imagem da entidade e do setor e, conseqüentemente, perdas econômicas. Mas, em verdade, o que é preservado com essa defesa não é um interesse comercial particular, mas algo mais profundo: a classe social dos proprietários rurais.
Apesar de serem poucos os empreendimentos que usam trabalho escravo, são muitos os que empregam sem os direitos garantidos por lei ou que superexploram a força de trabalho, gerando lucros ou facilitando a competição.

Por isso, da mesma forma que o combate à escravidão contemporânea tem sido ponta-de-lança para a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores rurais (ele pressionou pela ampliação da estrutura de inspeção do trabalho e de punição de infratores, o que é útil a toda a sociedade, por exemplo) a defesa dos empresários que utilizam esse expediente tem servido de bandeira para a manutenção do status quo no campo.

Um caso emblemático é o da proposta de emenda constitucional número 438/2001 que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo contemporâneo for encontrado. Aprovada no Senado e em primeiro turno na Câmara, ela está engavetada devido à pressão de representantes do setor agropecuário no Congresso, a chamada “bancada ruralista”.

Por mais que a proporção de empregadores que utilizam trabalho escravo contemporâneo seja pequena diante do universo de produtores rurais, esses representantes políticos são contrários à proposta. Pois, para eles, o que está em jogo é a propriedade da terra, considerada inviolável por parte dos seus representados – os proprietários rurais. A sua manutenção e concentração é condição fundamental para possibilitar o negócio agropecuário, pois, além de ser capital, é o locus onde se produz riqueza através do trabalho. A “PEC do Trabalho Escravo” é, pelo ponto de vista de membros da classe ruralista, um risco à sua própria existência e, portanto, lutar contra a sua aprovação representa mais do que manter a exploração de formas não-contratuais de trabalho.

Em tempo: Gilberto Andrade, o proprietário rural acusado de ter queimado o trabalhador de que falei no início deste texto, é um dos raros casos de condenação e prisão por esse crime no país. O interessante é que ele não foi julgado ainda pela libertação desse trabalhador, mas por outra ocorrida em uma de suas fazendas – uma das várias libertações que ocorreram em suas terras.

Fonte: Blog do Sakamoto

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AFTs participam do I Encontro Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo
Publicada em: 25-05-2010
 

Dirigentes do SINAIT e os coordenadores dos Grupos Estaduais de Fiscalização Rural participam do I Encontro Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, no período de 25 a 27 de maio, em Brasília. Os coordenadores rurais são convidados do SINAIT, que pretende, com esta iniciativa, trazer para o centro das discussões e decisões do problema os responsáveis pela fiscalização e resgate desses trabalhadores. O encontro reúne, ainda, os coordenadores do Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, autoridades, especialistas e representantes de setores que atuam no combate a esta grave violação dos direitos humanos.

Durante três dias, governo, organizações de empregadores e da sociedade civil, estarão voltados para a discussão do problema. “Neste sentido, a presença dos Auditores Fiscais do Trabalho – AFTs - que participam diretamente das operações de resgate de trabalhadores, soma-se aos esforços dos especialistas no assunto, na discussão de alternativas que erradiquem esta prática”, conclui a presidente do SINAIT, Rosângela Rassy.

O evento é promovido pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - Conatrae, da qual o Sindicato Nacional é integrante, pela Secretaria de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT)

Entre os temas discutidos estão “Por que o trabalho escravo persiste?”; “Políticas de repressão e o Sistema de Justiça”; “Trabalho Escravo e Responsabilidade Empresarial e O que falta fazer para erradicar?” entre outros.

O AFT, vice-coordenador da Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo – COETRAE/MT e Superintendente Regional do Trabalho em Mato Grosso, Valdiney Arruda, participa como palestrante na mesa sobre Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas: Políticas de Prevenção e Assistência às Vítimas. Além do AFT e coordenador de Fiscalização do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP), responsável pelo Pacto Municipal Tripartite Contra a Fraude e a Precarização, e pelo Emprego e Trabalho Decentes no estado, Renato Bignami.

Na mesa sobre Políticas de repressão e o Sistema de Justiça participa a AFT e Secretária Nacional de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, Ruth Vilela.

Além das discussões de mesas de debates que tratarão de diversos aspectos ligados ao tema dois atos devem marcar o evento.

No dia 26, às 13 horas, haverá uma audiência na Câmara dos Deputados para a entrega de um abaixo-assinado pedindo a urgente aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que prevê o confisco de terras de quem utilizou trabalho escravo.

No dia 27, os participantes do encontro realizam um ato público no gramado em frente ao Congresso Nacional pedindo a aprovação da chamada "PEC do Trabalho" Escravo, em evento marcado para as 14h30.

A abertura do I Encontro Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo é nesta terça-feira 25, às 19 horas, no auditório principal da Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília (DF). Estarão presentes quatro ministros (Paulo Vannuchi, dos Direitos Humanos; Carlos Lupi, do Trabalho e Emprego; Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário; e Wagner Rossi, da Agricultura e Pecuária), além do Diretor da OIT para a América Latina e o Caribe, Jean Maninat.

Desde o início das operações do grupo móvel de fiscalização do governo federal, em 1995, mais de 36 mil trabalhadores foram libertados dessa condição em todo o país.

A entrada é gratuita e a inscrição será feita no local do evento. Serão concedidos certificados para os participantes dos três dias do evento.

Confira a programação:

25 de maio, 19h - Abertura

26 de maio, manhã - Mesas de debates (Por que o trabalho escravo persiste? e Políticas de repressão e o Sistema de Justiça)

26 de maio, 13h - Audiência na Câmara dos Deputados para entrega de centenas de milhares de assinaturas da sociedade civil pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo (PEC 438/2001)

26 de maio, tarde - Mesas de debates (O Papel do Congresso Nacional no Combate ao Trabalho Escravo e Trabalho escravo e Tráfico de Pessoas: Políticas de Prevenção e Assistência às Vítimas)

27 de maio, manhã - Mesas de debates (Trabalho Escravo e Responsabilidade Empresarial e O que falta fazer para erradicar?)

27 de maio, 12h30 - Leitura da Carta da Liberdade - resultados do evento

27 de maio, 14h30 - Ato público com participantes pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo (PEC 438/2001) em frente ao Congresso Nacional

 

Mais informações:

- Leonardo Sakamoto - ONG Repórter Brasil

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(11) 2506-6570 e (11) 9713-9700

 

- Severino Goes - OIT

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(61) 9981-2187 e (61) 2106-4634

 

- Vanice Cioccari - SEDH/Presidência da República

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(61) 2025-3976 e 61) 9304-0021

Fonte: SINAIT

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